Ago 24 2008
Os Antidepressivos
Há algum tempo venho recebendo emails e comentários com dúvidas a respeito dos antidepressivos. Alguns perguntam se causam dependência, se podem tomar somente nos horários de crise e etc. Bem, repito aqui o que digo para todos: não sou profissional e devem sempre conversar com seus Médicos a respeito dos medicamentos que foram receitados, pois são eles que acompanham a evolução do transtorno de cada paciente. Mas não posso me esquivar de fornecer as informações solicitadas e acredito que este artigo venha tirar muitas das dúvidas a respeito.
O QUE SÃO OS ANTIDEPRESSIVOS? depressão
São medicamentos cuja ação ocorre no Sistema Nervoso Central, normalizando o estado do humor, quando a pessoa está deprimida (o que equivale a tristeza profunda, angústia, desinteresse, desmotivação, falta de energia, alterações do sono e do apetite e muitos outros sintomas).
Os medicamentos antidepressivos não atuam quando quando o estado do humor é normal, diferente dos psico-estimulantes.
COMO ATUAM OS ANTIDEPRESSIVOS?
Atuam no cérebro, modificando e corrigindo a transmissão neuro-química em áreas do Sistema Nervoso que regulam o estado do humor (o nível da vitalidade, energia, interesse, emoções e a variação entre alegria e tristeza), quando o humor está afetado negativamente num grau significativo.
OS ANTIDEPRESSIVOS SÃO DROGAS?
Não. Os antidepressivos são medicamentos que não produzem dependência, sendo a sua ação terapêutica resultante de um reequilíbrio do episódio depressivo.
São diferentes das substâncias psico-estimulantes que produzem dependência e cujo interesse terapêutico é muito menor condicionado em geral.
QUANTO TEMPO DEMORAM OS ANTIDEPRESSIVOS A COMEÇAR A ATUAR?
Em geral, a ação terapêutica dos antidepressivos é relativamente lenta. Depois de iniciado o tratamento com o medicamento, na dose correta prescrita pelo Médico, deve-se esperar o começo da melhoria dos sintomas de depressão ao fim de cerca de 15 dias, mas resultado total pode demorar cerca de um mês.
É importante saber esperar, confiar no médico e no tratamento.
QUAIS SÃO OS SINTOMAS QUE OS ANTIDEPRESSIVOS MELHORAM? alegria
As depressões são muito diferentes, tanto nos sintomas que apresentam, como na sua gravidade, evolução e reação do doente à depressão. Há depressões muito graves, outras moderadas. Há depressões de duração breve, média e longa (por vezes, crônicas). O antidepressivo, corretamente prescrito pelo médico, produz, em geral, um importante alívio da maioria dos sintomas depressivos, como a tristeza, a angústia, a lentidão, a diminuição da energia, a falta de concentração, o desinteresse, as alterações do sono e do apetite, e as idéias negativas (de culpa, de auto-desvalorização, baixo auto-estima e de suicídio). Por vezes é útil e necessário combinar a medicação antidepressiva com medicamentos estabilizadores de humor ou para a ansiedade.
QUAIS AS DOSES CERTAS PARA OS MEDICAMENTOS ANTIDEPRESSIVOS?
A recomendação absoluta é seguir a dose prescrita pelo médico. Muitas vezes inicia-se o tratamento com uma dose pequena, que aumenta gradualmente até ao nível considerado terapêutico. Se se registrarem no início efeitos indesejáveis, como secura na boca, tonturas, prisão de ventre, enjôos (por exemplo), informe o médico imediatamente, mas isso não significa que o medicamento esteja fazendo mal. Mas, em alguns casos, devido à intolerância produzida no início, pode ser necessário reduzir a dose ou mudar para outro antidepressivo. Não podemos esquecer que o medicamento pode levar algumas semanas até começar a aliviar a depressão.
Reduzir a dose sem ser por indicação médica é um erro, pois pode impedir a recuperação. Uma dose exagerada, como a maioria dos medicamentos, é sempre perigosa.
atençãoÉ POSSÍVEL A AUTO-PRESCRIÇÃO COM ANTIDEPRESSIVOS?
Não! A prescrição destes medicamentos é de responsabilidade do médico, processo que envolve um diagnóstico prévio de doença depressiva.
Os antidepressivos não são medicamentos que se possam usar num momento (uma vez, ou irregularmente algumas vezes), como um analgésico. Quando se inicia a terapêutica antidepressiva tem de ser cuidadosamente planeada entre o médico e o doente, envolvendo eventualmente o apoio de familiares. Tanto o início como o término do tratamento são de responsabilidade do médico. Uma interrupção precoce do tratamento, porque a pessoa «já se sente bem», é causa freqüente de recaída ao fim de alguns dias ou semanas.
OS ANTIDEPRESSIVOS SÃO TODOS IGUAIS?
Não. O primeiro medicamento antidepressivo foi descoberto na década 1950/60. Desde então surgiram muitos medicamentos com ação antidepressiva e outros continuam em investigação.
As diferenças entre os antidepressivos incidem nos seguintes aspectos:
a) Os antidepressivos pertencem a grupos farmacológicos diferentes, com diferentes mecanismos de actuação no cérebro;
b) Perfil de acção terapêutica diferente, sendo uns mais activadores (melhorando mais a ociosidade, a falta de energia e lerdeza), outros são melhores para a angústia e a agitação, etc.. Deve-se levar em conta a resposta diferente de cada pessoa aos diversos antidepressivos;
c) Importantes diferenças nos efeitos secundários (indesejáveis), os quais podem contra-indicar alguns dos antidepressivos, em função desses efeitos adversos, tendo em conta a idade, a tolerância, outras doenças que possam coexistir com a depressão, contraindicações formais, etc.. É importante que o médico saiba de outras doenças, como, por exemplo, as cardíacas, as oftalmológicas (olhos), da próstata, etc..
É importante dar falar com o Médico sobre outros medicamentos que tomam regularmente e antidepressivos que já tenham sido prescritos, e sua respectiva eficácia e tolerância;
d) A diversidade das depressões, cujas causas e mecanismos são diferentes, justifica a necessidade de diferentes grupos de antidepressivos, com diversos mecanismos de ação, pois uma pessoa pode não melhorar com um (ou alguns) antidepressivo(s) e melhorar com outro(s). Por vezes é necessária a combinação de dois antidepressivos com diferentes mecanismos de ação;
e) Os antidepressivos investigados mais recentemente caracterizam-se por terem menos efeitos secundários no organismo e por serem mais selectivos, mas não são mais potentes que os primeiros, que continuam a ser muito úteis. A toxicidade para doses excessivas é significativamente mais baixa nos antidepressivos mais recentes;
f) Alguns antidepressivos são eficazes sobre as crises de pânico e as obsessões, que podem coexistir com a depressão, mas também podem aparecer em perturbações diferentes da depressão.
OS ANTIDEPRESSIVOS SÃO SEMPRE EFICAZES?
Não. Em alguns casos a pessoa terá de fazer uso de dois ou mais antidepressivos seqüencialmente, ou em combinação, e em associação com outros medicamentos que potencializam os antidepressivos. Em alguns casos a depressão não cede aos antidepressivos por diversas razões, em que se inclui a coexistência de doença física, o uso de álcool ou de drogas, a gravidade dos fatores psico-sociais ou, apenas, a não-resposta do episódio depressivo aos medicamentos. A indicação da eletroconvulsoterapia (ECT) reserva-se para depressões graves e resistentes.
QUANTO TEMPO TEM QUE SE TOMAR UM ANTIDEPRESSIVO? Tempo
Esta decisão compete ao médico. Em geral, a terapêutica de uma depressão justifica vários meses de tratamento (± 6 meses). Há doentes que terão de tomar a medicação por um período prolongado ou mesmo indeterminado para evitar as crises depressivas. Nestes casos o medicamento antidepressivo é preventivo da recorrência das crises depressivas. Deve-se ter em conta que na depressão é mais freqüente haver tendência a crises repetidas, e/ou periódicas. Se a recorrência das crises é freqüente, justifica-se a prevenção antidepressiva. No caso das crises serem bipolares (crises de euforia alternando com depressão) a prevenção deverá, caso seja necessária, ser feita com estabilizadores do humor como a Olanzapina, a Lamotrigina, o Valproato, Carbonato de Lítio, Quetiapina, Carbamazepina, Risperidona e Ziprasidona e outros.
CONCLUSÃO
Os medicamentos antidepressivos são um grupo terapêutico excepcionalmente importante no tratamento das depressões e na sua prevenção.
Dada a importância individual, familiar e social das doenças depressivas, com o sofrimento que as caracteriza, a incapacidade que produzem, a incompreensão e rejeição a que muitas vezes conduzem os pacientes e o risco de suicídio, o seu tratamento eleva os medicamentos antidepressivos a um nível de importância aos de outros medicamentos indispensáveis para a medicina e a psiquiatria.
Mas seria uma caricatura absoluta e irresponsabilidade tentar rotular estes medicamentos com uma pílula milagrosa («semi-droga») ou entender que o tratamento da depressão se limita à prescrição de um medicamento. Sendo essencial a medicação, como em outras áreas da medicina, é também indispensável no tratamento a compreensão, a explicação, a motivação e o apoio psicoterapeutico individual e familiar. Mais do que nas outras doenças, a relação terapêutica é fundamental. Mas sem a medicação antidepressiva, para a maioria das depressões, a mais bem consumada psicoterapia é manifestamente insuficiente, intervindo tão só na esfera dos mecanismos psicológicos de defesa.
SABER SOBRE DEPRESSÃO E RECONHECÊ-LA COMO DOENÇA É IMPORTÂNTE NUMA EDUCAÇÃO PARA A SAÚDE, TANTO DA PESSOA, COMO DA COMUNIDADE
